Páginas do livro Brodagens, de Pedro de Luna

Na década de 90, São Gonçalo se tornou uma cidade ainda mais musical. Tanto pela quantidade de músicos quanto de bares e locais com música ao vivo, ainda que em sua maioria para covers. Nesse contexto, a cena independente emergiu impulsionada por comerciantes, produtores de eventos e fanzineiros

O primeiro show do Tornado em sua cidade foi na Comunidade S8, no bairro de Santa Catarina Para quem não conhece, a S8 é uma associação civil sem fins lucrativos que surgiu em 1971 numa chácara. Seu objetivo é atuar na prevenção e tratamento de dependentes químicos e seus filhos. Uma das formas encontradas para atrair a juventude gonçalense para uma vida sem drogas era estimular a arte e o esporte. Neste local em especial havia uma pista de skate e shows gratuitos de bandas, o que atraiu uma galera descolada para o local.

E o Tornado conseguiu tocar lá graças a insistência do Ronaldo Brantes, o tal faz tudo da banda. Foi 4 ele quem pediu uma oportunidade para a banda ao Ayrton Moreira, que já naquela época trabalhava com estamparia. “O ano deve ter sido 1995, mas esse projeto acabou e retornou alguns anos depois, num outro lugar, no bairro de Marambaia. Foi ai que eles tocaram pela segunda vez, mas já por volta de 2003, relembra Ayrton,

Gilber também nunca se esqueceu da sua primeira vez no 58: “quando o show acabou, o Ayrton nos colocou no meio da quadra, chamou a rapaziada e fizeram um circulo com a gente no meio. Então leram uma passagem da Bíblia. Até hoje essa imagem é muito forte na minha cabeça”.

Assim como aconteceu no Garage, a primeira impressão do Tornado foi tão boa que conquistou os produtores do S8. principalmente Ayrton, que virou f. “Sempre gostei muito. Acho que o maior motivo era o fato de sair do convencional, de romper com o que estava na moda. Eles vinham com uma linha de som mais elaborado enquanto a maioria das bandas era de hardcore californiano, grunge e outras mais para o metal. Eles não. Faziam um som bem swingado, com letras românticas, eram muito criativos e virtuosos, por mais que o Gilber vivesse se auto denegrindo. Ele nem esperava as pessoas falarem mal I da banda, ele mesmo falava no palco, era) bem engraçado (risos)”.

MÚSICA E MODA

São Gonçalo, e, sobretudo, o bairro comercial de Alcântara, são conhecidos pela tradição em confecções e estamparias. A associação entre moda e rock estava em evidência, e grandes marcas como Vision, Cavalera e Drop Dead patrocinavam bandas como Planet Hemp e Raimundos. O baterista Bacalhau lembra que na época do Planet Hemp a banda ganhava roupas, ténis e algum suporte. Depois, na fase em que tocou bateria no Autoramas, a Adidas deu roupas e tênis.

O DJ Guilherme Müller, filho do proprietário da Qix, recorda-se que num dos primeiros shows do Planet no Rio Grande do Sul “a gente colou com o porta-malas cheio de ténis por que não sabíamos o número que eles calçavam. Então levamos todas as opções de tamanho e cor. A empresa também apoiou outras bandas. “Nas turnês do Charlie Brown Jr a gente montava uma mini ramp em frente ao palco. A banda Ultramen também teve contato próximo por muitos anos”.

Com o tempo as coisas foram se profissionalizando mais. Primeiro DJ do Planet, Rodrigues, se recorda bem da parceria entre a Qix e a banda BNegão & Os Seletores de Frequência, da qual também foi DJ. “Eles tinham em um banco de dados com os tamanhos de roupas e tênis dos componentes da banda e assim enviavam uma única caixa para o endereço do Bernardo com vários itens: tênis, calça, boné, casacos etc. Esta cota era mensal, por vezes bimestral. A QIX chegou a lançar uma camisa promocional do primeiro CD, Enxugando Gelo, mas as demais peças eram de coleções da própria marca”.